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Saudações amantes de vinhos e viagens! Quero compartilhar com vocês um pouco das minhas experiências no exterior. Confesso achar-me um tanto frustrado, pois esse texto de abertura teria como objetivo expressar em palavras o que sentia enquanto estava lá. Apesar de ter dedicado o meu melhor, a língua do homem ainda é muito imperfeita para tal feito. Portanto, espero que essas palavras sirvam como fonte de inspiração para vossas futuras viagens, logo, compreendereis…

Em 2008 tive a oportunidade de residir por três meses no maior país da península ibérica, a Espanha. O motivo de minha viagem foi os cursos para estrangeiros de “Lengua y Cultura Españolas” oferecido pela Universidad de La Rioja, na cidade de Logroño, La Rioja. Além do curso de língua a universidade ofereceu cursos complementares. Dentre uma lista de 13 cursos acabei optando pelos seguintes: “Introducción a La Cultura y Elaboración del Vino” e “Cultura Española a través de Su Gastronomía”. Foi aí que o meu encanto pelo vinho e culinária teve início.

 O vinho de La Rioja será o assunto principal a ser tratado nesse texto. Para adentrar na cultura do vinho da Espanha é necessário, primeiramente, entender um pouco de Denominação de Origem (DO). Para quem não conhece a Denominación de Origen é um tipo de indicação geográfica aplicada a um produto agrícola ou alimentício, cuja qualidade e/ou características se devem exclusivamente ao meio geográfico em que o produz, transforma e elabora. Em outras palavras, é uma qualificação que se emprega para proteger legalmente certos alimentos que são produzidos em uma zona determinada contra produtores de outras zonas que gostariam de aproveitar da boa reputação do produto no mercado. No caso do produto vinho existem diferentes graus de DOs, no quesito qualidade de produto, segundo a legislação Espanhola: Denominación de Origen, Denominación de Origem Calificada, Vino de Calidad con Indicación Geográfica, Vino de Pago e Vino de Pago Calificado. Os vinhos de maior respeito são condecorados com a Denominación de Origem Calificada e o assunto é levado muito a sério pelas comunidades autônomas, detentoras dessas DOs.

Dentre as 63 DOCas (Denominación de Origem Calificada) de vinho da Espanha, a Rioja é a mais importante economicamente, representando mais de 40% das vendas em vinho de todo país e a maior parte das exportações. Atualmente a Denominação de Origem Rioja se estende por aproximadamente 63.500 hectares e produz 275 milhões de litros de vinho, dos quais 85% são de tinto e 15% de branco. (UR, 2008.).

Mas como um vinho conquista esse selo de qualidade? Para tal feito, o produtor deve seguir as normas ditadas pelo Conselho Regulador (CR).

O “Consejo Regulador de la Denominación de Origen Calificada Rioja” é o órgão encarregado de manter o alto nível de qualidade e fazer com que as normas de produção sejam cumpridas pelos produtores da região. A legislação para a DOCa Rioja é muito extensa e complexa, portanto não entrarei em mais detalhes. Citarei as informações que julgo importantes para o conhecimento do leitor. A legislação completa está no website www.riojawine.com.

Atendendo à DOCa Rioja, segundo sua legislação:

1. As variedades de uvas tintas autorizadas são: Tempranillo, Garnacha, Mazuelo, Graciano e Maturana. As brancas são: Viura, Malvasía, Garnacha Blanca, Chardonnay, Sauvignon Blanc, Verdejo, Maturana blanca, Tempranillo Blanco e Turruntés. As mais cultivadas são a Tempranillo e Viura, correspondendo a 82,4% da área total de tintas e a 96,4% da área total de brancas. O limite produtivo para as uvas tintas é de no máximo 6.500Kg por hectare e para as brancas de no máximo 9.000Kg por hectare, isso é feito para manter o alto nível de qualidade das uvas.

2. O território de La Rioja é dividido em subzonas produtoras Rioja Alta (detentora dos melhores vinhos desta DOCa), Rioja Baja e Rioja Alavesa. Vale constar que todo vinho que leva o nome de Rioja no rótulo deve ter a respectiva matéria-prima, a uva, cultivada dentro dos términos municipais das subzonas e ser produzido e engarrafado em solo riojano.

3. O processo de envelhecimento dos vinhos também segue uma normativa e se estabelece nas seguintes categorias: Vino Joven, Vino Crianza, Vino Reserva e Vino Gran Reserva (quem nunca ouviu falar do famoso Crianza de Rioja?). Para cada categoria há uma especificação de tempo de envelhecimento em barrica e em garrafa e está diretamente relacionada com a qualidade das uvas, ou seja, os vinhos Reserva e Gran Reserva serão produzidos apenas a partir de excepcionais colheitas.

4. A rotulagem da garrafa é a referência mais importante para o consumidor final identificar a origem do produto. A garrafa certificada deve levar nos rótulos a denominação Rioja e o logotipo do Conselho Regulador, além da etiqueta original do mesmo, contendo o holograma e o número (CR) de registro do produtor.

 

O vinho faz parte da vida em Logroño:

O vinho possui raízes profundas na história da Espanha e, em especial, da região de La Rioja. Sendo um produto de grande importância econômica, há incentivo pelo governo por meio de gordos investimentos em enoturismo. Em Logroño, as cepas com seus respectivos cachos de uva estão representadas por toda parte, pintados em murais artísticos pelas ruas, nos ladrilhos que ornamentam as calçadas das principais vias e detalhadamente talhados em madeira (pintada de ouro -“pan de oro”) nos altares da Catedral Redonda de 1453. Existem até cepas produtivas plantadas como forma de paisagismo em alguns parques da cidade. Por esse motivo digo que a capital da comunidade autônoma de La Rioja “respira o vinho”. Você é alimentado constantemente pela idéia e inspirado pelo espírito de Baco, basta sair descompromissado pelas ruas e acabar em um bar com uma taça na mão e rodeado de amigos.

O cotidiano em Logroño é muito pacato e o povo muito hospitaleiro. Como rotina, o comércio abre às nove da manhã e fecha para o almoço ao meio-dia. É comum as pessoas beberem vinho no almoço, às vezes uma garrafa por pessoa. Após o almoço existe a cultura da “siesta”, a famosa soneca digestiva, que se estende até as três da tarde! O comércio volta com suas atividades após as três e fecha por volta das nove da noite.

A vida noturna se resume ao binômio comer-beber. A célebre “Calle Laurel” (Rua Laurel), localizada no “Casco Antiguo” e com um pouco mais de 200 metros, reúne os melhores bares e restaurantes da cidade (40), um ao lado do outro. Após as nove da noite está sempre abarrotada de gente. É um costume reunir os amigos e ir de bar em bar numa espécie circuito; há grupos de amigos que freqüentam os mesmos bares, com itinerário fechado, por vários anos. Em cada um se consome, usualmente, uma taça de “vino crianza” ou um “corto” (tacinha de chopp) e as “tapas” ou “bocadillos” (pequenas porções de comida que acompanham a bebida). O lugar é pitoresco, a rua é estreita e não há carros. Sua aparência remonta a idade média, o chão é feito de pedras de granito castigadas pelo tempo. Em alguns estabelecimentos, barricas aposentadas de vinho são utilizadas como mesinhas, as quais sempre estão circundadas por clientes; esses repousam suas taças de vinho enquanto saboreiam peculiares “pinchos” (espetinhos assados) originários da cozinha mediterrânea.

Por volta da meia noite, a Calle Laurel encerra suas atividades e o povo mais velho se dirige as suas casas. Já os menos aventurados migram em bandos para outros bares. Outro circuito começa, mas agora vale tudo. Realmente não há regras, há estilos de bares para todos os gostos; beba o que gostar e o quanto quiser. Por experiência própria recomendo a vasta opção de vinhos disponível. O destino final, para encerrar a noite, é sempre as boates; existem duas na cidade.

Mais vinho em Logroño:

O enoturismo é abundante. A opção de visitar as Bodegas (vinícolas) é um bom programa para quem é simpatizante da enología. As opções são inúmeras e cada uma das vinícolas explora um nicho diferente para atrair visitantes: umas possuem museus temáticos, outras galerias de arte e ainda há aquelas que só possuem sua história e fama pelos excelentes produtos. O preço das visitas é variável, mas geralmente acessível e sempre há degustações. Também é uma ótima opção para comprar vinhos, pois os preços são mais baixos que nas lojas especializadas.

A seção de vinhos nos supermercados da cidade impressiona. Há opções acessíveis a todos os públicos, desde vinhos de 0,75 centavos até 75 euros a garrafa. Existem também as opções de vinho (tinto e branco) em caixa tipo brick, plástico (bag in box) e latas de alumínio, as quais são mais baratas pela menor qualidade e maior volume de produto; essas são as novas tendências de mercado voltadas ao público jovem, que consome esse tipo de vinho (geralmente tinto) misturado com Coca-Cola, o famoso drink Calimocho. Meu primeiro vinho foi da marca Hacendado, o tinto mais barato dos engarrafados, comecei pelo mais simples, uai?! É fato, um bom Crianza de Rioja, legítimo, é encontrado por cinco euros nas prateleiras da rede de supermercados Eroski. A categoria superior (Reserva) já é vendida por doze euros. De qualquer maneira o custo-benefício na compra dos vinhos é excelente. Para quem possui gosto mais requintado é recomendável uma visita as casas especializadas em vinhos.

Visitei as Bodegas Franco-Españolas localizadas em Logroño. Degustei um vinho que me chamou a atenção; permaneceu em minha memória organoléptica. O Rioja Bordón Crianza 2004. O ano de 2004 é considerado excelente pela Carta de Añadas do Conselho Regulador, por isso o vinho era um pouco mais caro, doze euros. Composto de vinhos das variedades Tempranillo e Garnacha tinta, envelhecidos em barricas de carvalho branco americano. Possui aromas intensos clássicos de fruta madura, ameixa, madeira-carvalho e baunilha; na boca possui final longo e persistente. O melhor é que pode ser encontrado casas de vinho ou importadoras da cidade de São Paulo.

Até a próxima…

Grande abraço a todos

Eder Luiz Cherutti